Feliciano Calisto
Se bem me recordo, a primeira vez que ouvir a palavra UPP foi num telejornal. Tratava-se, segundo o noticiário, de uma forma inovadora, digo até feérica, de resolver o problema da criminalidade em áreas dominadas por bandidos em comunidades carentes. Fique extasiado com a proposta, uma vez que vivia (e vivo) numa comunidade que há anos mantinha-se ( e mantém-se) refém de um grupo de bandidos.
Quando soube que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se estenderiam à região Nordeste, e, sobretudo, ao meu bairro, o Nordeste de Amaralina, tamanha foi minha felicidade que só me faltou as lágrimas. Com o sucesso, segundo a mídia, da Unidade de Polícia Pacificadora no bairro do Calabar, minhas expectativas cresceram. Muitíssimo feliz, esperei a UPP ansioso para andar livremente pelo meu bairro, visto que, devido a rixas entre os traficantes, eram-nos vedados algumas áreas do Nordeste. Fui ingênuo, admito.
Embora muitos moradores não acreditassem em algo grandioso com as instalações da UPPs no Nordeste de Amaralina, esperava-se, pelo menos, uma melhora. Esta se apresentava meio que indistinta e amorfa nas mentes já atrofiadas dos moradores que por anos viram-se sob o jugo do crime organizado. Mas, de qualquer modo, eles esperavam melhorias. Outra parte, quer por convivência, quer por afinidades com os criminosos, já amaldiçoava aquela outro forma de opressão do Governo contra os “pobres meninos”.
Nos dois dias que precederam a inauguração, os policiais intensificaram as excursões contra o bairro. Por outro lado, enquanto os policiais, à revelia dos criminosos, fazia um bestial simulacro de uma grande operação de guerra, os garis (um mar deles) tentavam limpar a sujeira que se acumulara em anos de abandono por todo o bairro. Ora, a cúpula do governador não desejava que ele presenciasse tamanha desordem nos arredores! Ordem e Progresso! Deste modo, as vias de ligação do Nordeste de Amaralina, de um dia para o outro, estavam todas limpas, sem nenhuma obstrução. Via-se, de antemão, o jogo de maquiagem que marcaria todo o projeto das UPPs.
Após a “ocupação” do Nordeste, vi-me numa espécie de Big Brother, pois aonde eu ia tinha uma câmera a me olhar, advertindo-me. Percebi, no entanto, o quão vulneráveis e inúteis eram aquelas câmeras. Sempre soube que na polícia baiana não havia uma área de inteligência qualificada. Sequer analisaram a topografia do bairro decentemente, se é que o fizeram. Os bandidos deixaram as áreas onde eram monitorados, e ficaram do outro lado, em um ponto cego, bem perto da câmera, como que zombando. Sem falar que onde eles ficam realmente não houve nenhuma instalação de câmeras. Estas áreas, ainda hoje, só fazem crescer. Como eu havia previsto, as câmeras não demoraram a derrocar. Na greve dos policiais, apresentou-se o ensejo. Depredaram a maioria das câmeras, e foram poucas as que sobreviveram.
Os policias das unidades de pacificamento são motivo de chacota nas localidades. Os moradores os veem como medrosos e moleques, sobretudo mal preparados. Em grande parte é a pura verdade. Vê-los não deixa de ser engraçado. Uns tipos desengonçados, esbranquiçados, filhos-de-papai, estudantes esforçados que, a fim de melhorar de vida, entraram na PM apenas para a estabilidade financeira, sem firma nenhum compromisso com a causa da corporação. Passam o dia todo a andar nas novas viaturas, ou a conversar na unidade, ou a passear soltando gracejos às pequenas. Quando, efetivamente, saem das unidades e vão para as áreas de risco – onde deveria ser instaladas as bases – ficam desorientados e assustadiços, a tremer. Inclusive, apareceu-me certo dia um deles, perdido, me perguntando esbaforido para onde foi o batalhão. Presenciei também outra cena: policiais desciam uma ladeira, enquanto, em baixo, os bandidos traficavam. Estes, percebendo a presença dos policiais, nem se deram ao luxo de correr, sabendo da covardia coletiva dos policiais. Puseram-se a andar insolentemente, zombando e rindo. Os policias, por outro lado, diminuíram o passo, a fim de que os bandidos se dispersassem, evitando o conflito.
Mas essas excursões se tornaram raras. E quando acontecem, os policiais fazem vista grossa, receosos. Eles preferem coexistir pacificamente com os criminosos, de modo que um transeunte pode se deparar com policiais numa esquina e, ao virar-se, boquiaberto, ver-se na presença de bandidos fortemente armados. Há boatos que os policiais mandaram um moleque propor, aos bandidos, um armistício, sem perdas das partes. Sem contar que nem uma abordagem os novos policiais sabem fazer, muita das vezes os moradores servindo de cobaia às aulas ao ar livre dos PMs. (eu já fui cobaia).
Neste meio tempo, o crime fortaleceu-se no Nordeste de Amaralina e mostra-se mesmo como um poder paralelo, pois é habitual os moradores recorrerem aos bandidos para casos de família, contendas, brigas... só faltando aos tratantes a toga. E eu, eu sucumbi à síndrome do castelo de areia, onde construo meu castelo tendo como base minhas aspirações e o vejo se destruindo e sendo levado pelo mar, quando não é eu mesmo que o destruo. O castelo que construí com base nas melhoras em meu bairro através das UPPs há muito que foi tragado pelas águas gélidas da realidade.