domingo, 5 de agosto de 2012

A Farsa das UPPs no Nordeste de Amaralina

Feliciano Calisto

Se bem me recordo, a primeira vez que ouvir a palavra UPP foi num telejornal. Tratava-se, segundo o noticiário, de uma forma inovadora, digo até feérica, de resolver o problema da criminalidade em  áreas dominadas por bandidos em comunidades carentes. Fique extasiado com a proposta, uma vez que vivia (e vivo) numa comunidade que há anos mantinha-se ( e mantém-se) refém de um grupo de bandidos.

Quando soube que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se estenderiam à região Nordeste, e, sobretudo, ao meu bairro, o Nordeste de Amaralina, tamanha foi minha felicidade que só me faltou as lágrimas. Com o sucesso, segundo a mídia, da Unidade de Polícia Pacificadora no bairro do Calabar, minhas expectativas cresceram.  Muitíssimo feliz, esperei a UPP ansioso para andar livremente pelo meu bairro, visto que, devido a rixas entre os traficantes, eram-nos vedados algumas áreas do Nordeste. Fui ingênuo, admito.

Embora muitos moradores não acreditassem em algo grandioso com as instalações da UPPs no Nordeste de Amaralina, esperava-se, pelo menos, uma melhora. Esta se apresentava meio que indistinta e amorfa nas mentes já atrofiadas dos moradores que por anos viram-se sob o jugo do crime organizado. Mas, de qualquer modo, eles esperavam melhorias. Outra parte, quer por convivência, quer por afinidades com os criminosos, já amaldiçoava aquela outro forma de opressão do Governo contra os “pobres meninos”.

Nos dois dias que precederam a inauguração, os policiais intensificaram as excursões contra o bairro. Por outro lado, enquanto os policiais, à revelia dos criminosos, fazia um bestial simulacro de uma grande operação de guerra, os garis (um mar deles) tentavam limpar a sujeira que se acumulara em anos de abandono por todo o bairro. Ora, a cúpula do governador não desejava que ele presenciasse tamanha desordem nos arredores! Ordem e Progresso! Deste modo, as vias de ligação do Nordeste de Amaralina, de um dia para o outro, estavam todas limpas, sem nenhuma obstrução.  Via-se, de antemão, o jogo de maquiagem que marcaria todo o projeto das UPPs.

Após a “ocupação” do Nordeste, vi-me numa espécie de Big Brother, pois aonde eu ia tinha uma câmera a me olhar, advertindo-me. Percebi, no entanto, o quão vulneráveis e inúteis eram aquelas câmeras. Sempre soube que na polícia baiana não havia uma área de inteligência qualificada. Sequer analisaram a topografia do bairro decentemente, se é que o fizeram.  Os bandidos deixaram as áreas onde eram monitorados, e ficaram do outro lado, em um ponto cego, bem perto da câmera, como que zombando. Sem falar que onde eles ficam realmente não houve nenhuma instalação de câmeras. Estas áreas, ainda hoje, só fazem crescer.  Como eu havia previsto, as câmeras não demoraram a derrocar. Na greve dos policiais, apresentou-se o ensejo. Depredaram a maioria das câmeras, e foram poucas as que sobreviveram.

Os policias das unidades de pacificamento são motivo de chacota nas localidades. Os moradores os veem como medrosos e moleques, sobretudo mal preparados. Em grande parte é a pura verdade. Vê-los não deixa de ser engraçado. Uns tipos desengonçados, esbranquiçados, filhos-de-papai, estudantes esforçados que, a fim de melhorar de vida, entraram na PM apenas para a estabilidade financeira, sem firma nenhum compromisso com a causa da corporação. Passam o dia todo a andar nas novas viaturas, ou a conversar na unidade, ou a passear soltando gracejos às pequenas.  Quando, efetivamente, saem das unidades e vão para as áreas de risco – onde deveria ser instaladas as bases – ficam desorientados e assustadiços, a tremer. Inclusive, apareceu-me certo dia um deles, perdido, me perguntando esbaforido para onde foi o batalhão. Presenciei também outra cena: policiais desciam uma ladeira, enquanto, em baixo, os bandidos traficavam. Estes, percebendo a presença dos policiais, nem se deram ao luxo de correr, sabendo da covardia coletiva dos policiais. Puseram-se a andar insolentemente, zombando e rindo. Os policias, por outro lado, diminuíram o passo, a fim de que os bandidos se dispersassem, evitando o conflito.

Mas essas excursões se tornaram raras. E quando acontecem, os policiais fazem vista grossa, receosos. Eles preferem coexistir pacificamente com os criminosos, de modo que um transeunte pode se deparar com policiais numa esquina e, ao virar-se, boquiaberto, ver-se na presença de bandidos fortemente armados. Há boatos que os policiais mandaram um moleque propor, aos bandidos, um armistício, sem perdas das partes.  Sem contar que nem uma abordagem os novos policiais sabem fazer, muita das vezes os moradores servindo de cobaia às aulas ao ar livre dos PMs.  (eu já fui cobaia).

Neste meio tempo, o crime fortaleceu-se no Nordeste de Amaralina e mostra-se mesmo como um poder paralelo, pois é habitual os moradores recorrerem aos bandidos para casos de família, contendas, brigas... só faltando aos tratantes a toga. E eu, eu sucumbi à síndrome do castelo de areia, onde construo meu castelo tendo como base minhas aspirações e o vejo se destruindo e sendo levado pelo mar, quando não é eu mesmo que o destruo. O castelo que construí com base nas melhoras em meu bairro através das UPPs há muito que foi tragado pelas águas gélidas da realidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Em um dos seis, branco ou nulo?


Foi dada a largada. Ontem (02/08) foi realizado pela Band o primeiro debate entre candidatos a prefeitura de Salvador. Pois é.  Com algumas semanas de antecedência a emissora insistia, como sempre, que era a primeira a realizar o debate entre candidatos a prefeito. E pra variar só um pouquinho, repórteres entrevistavam cada candidato que chegava a sede da emissora e faziam as mesmas perguntas: qual a sua expectativa para o debate, candidato? E sempre com um sorriso no rosto o candidato responde à pergunta de forma agradável, provavelmente recebida em um papel amassado de um assessor de campanha ou treinada na frente do espelho antes de sair de casa e prontinha para ser vomitada em qualquer repórter que se ousasse lhe fazer tal pergunta clichê. Ufa! Um pseudodebate. Segundo a própria emissora e os candidatos prometeram, exposição de ideias e propostas para a cidade fariam parte do debate. Hein? O próprio modelo de debate imposto pelas emissoras de comunicação já é um empecilho para a exposição de qualquer ideia que seja; tudo é muito cronometrado, robotizado, engessado, em fim...  Dois minutos para um candidato responder à pergunta elaborada pela emissora. Tempo mais que suficiente, não é? Claro que não. Isso só ajuda a manter o modelo de resposta fest-food. Acho que quando a população diz não gostar do horário político tem razão. Em não assistir aos debates, idem. Tanto é que vi um dia desses, não lembro onde, que a maioria das pessoas que veem os debates, já tem seus votos definidos. Ou seja, assistem para se divertir, creio eu. Em tempo de Zorra Total qualquer debate político nos traz um pouco de divertimento.

As promessas e as respostas são sempre as mesmas e por mais bonitas que sejam não serão cumpridas. Sim, sou pessimista. Ponto. Todo mundo sabe que política é poder e gira em torno de interesses, sejam políticos ou empresarias que por coincidência, quase sempre andam juntos. Salvador infelizmente passa por uma situação lamentável. A cidade é dividida em lotes, o que não é novidade para ninguém. Também não vejo solução. Quem faz aniversario, ou seja, ganha a eleição, tem mesmo que dividir o bolo. O primeiro pedaço sempre vai para o pai, mãe, irmão, ou para o melhor amigo. Quem apoia mais, seja financeiramente ou de qualquer outra forma, leva a maior fatia. Sempre!

PRIMEIRA PESQUISA - Temos oito opções: Votar em um dois seis candidatos, nulo ou em branco. O primeiro é o neto de ACM, não necessariamente “neto” precisaria vir antes de “ACM”, já que o menino já anda com suas próprias pernas há algum tempo. Pelegrino, candidato do PT, sonha há alguns anos ser prefeito de Salvador, só. Como uma novidade velha, ou vice-versa, aparece o salvador MK, ou Mário Kertész. Depois de 18 anos comandando a Rádio Metrópole, ouvindo os problemas da população, batendo em João Henrique e mandando página musical, vem dizer que Salvador tem jeito. Acredito. Salvador tem jeito mesmo. E sinceramente, até gosto de MK e com certeza ele fará a diferença nessas eleições. Em 4° está Márcio Márinho, o bispo. Não sei o que comentar sobre o vice de ACM Neto nas eleições para prefeito em 2008. Lembram? Pois é. Em seguida vem Da Luz, que há algumas décadas pensa em acender as luzes de Salvador. É até um pouco engraçado, como a maioria dos candidatos de partidos nanicos. Hamilton Assis, nem preciso comentar, já que não pontuou nas pesquisas. Só que não sou desses, gosto de democracia. É até legalzinho, poderia ter se candidatado a vereador, as chances seriam maiores. Pena.

Pra mim, é dia 21 de agosto que começar o melhor da politicagem. A propaganda eleitoral virá com as mais variadas figuras que a televisão poderia ter. Como os programas de humor andam em falta na Tv brasileira, vou aproveitar o período para me divertir, principalmente com os candidatos a vereadores.

domingo, 29 de julho de 2012

Saudade, Malu

A última Teleanálise de Malu Fontes foi publicada  no A Tarde deste domingo (29/07). Sentirei saudade da ironia, acidez e do bom humor contidos em seus textos. Há quatro anos acompanhando Malu, percebi o quanto ela é apaixonada por notícias, informação e jornalismo. Sei que ela vai continuar escrevendo, seja para outros jornais, sites ou blogs. Porém, foram as Teleanálises que me fizeram refletir sobre os mais diversos temas e além de tudo influenciar na escolha da profissão que optei por seguir.


O jornal A Tarde atravessa uma de suas maiores crises. Em fevereiro de 2011 um jornalista foi demitido por imposição de empresários do setor imobiliário depois de fazer uma denuncia contra uma construtora. Um mês depois, veio o pedido de demissão da jornalista Emanuella Sombra, após o editor-chefe, Ricardo Mendes, determinar a retirada do trecho da entrevista que ela fez com a cantora Ivete Sangalo. As perguntas se referiam à crise enfrentada pela Caco de Telha e ao processo que envolvia seu ex-baterista, Tonho Batera, e seria publicada na revista Muito.


A cada dia o impresso reduz páginas e elimina cadernos, como aconteceu com a Revista da Tv, onde o texto de Malu Fontes era publicado sempre aos domingos. Depois da extinção da RTV a coluna de Malu foi transferida para o Caderno 2+, porém, sem alterar o dia.


Confira:
Teleanálise retirada do Blog Conteúdo Livre


 Malu Fontes - BATMAN E O VIZINHO: HASTA LA VISTA, BABY

Durante a semana, notícias tendo como elemento central a banalização da morte nortearam as principais manchetes dos telejornais internacionais, nacionais e locais. Sim, esses fenômenos são uma constante no jornalismo, mas aqui e acolá episódios nos quais essa banalidade se manifesta os hierarquizam de tal modo numa ordem de horror e non sense que ainda surpreendem. Partindo do global para o local, nos Estados Unidos, no estado do Colorado, na cidadezinha de Aurora, uma plateia de batmaníacos esfregava as mãos de ansiedade para uma sessão de estreia do filme à meia noite, quando, no escuro, irrompeu o imponderável. Uma saraivada de tiros. 12 mortos, 58 feridos e um país de novo boquiaberto.

MARKETING - Num país, os EUA, onde todas as naturezas de ações de marketing são possíveis, numa cultura local do culto às armas de fogo na qual qualquer moleque consegue comprar um arsenal de guerra sem qualquer dificuldade e numa sucessão de casos em que adolescentes ou adultos jovens perturbados já inscreveram uma longa história de violência, primeiro achou-se que os tiros não passavam uma ação de marketing associada à estreia. Depois, houve uma correria às lojas de armas da cidade para comprar mais e mais exemplares delas e, simultaneamente, a imprensa do mundo repetiu a pergunta que faz sempre e para a qual nunca se tem resposta objetiva e diante da qual todas as especulações malucas disputam um lugar entre as possibilidades de explicação: por que esse fenômeno se repete tanto nos Estados Unidos e como evitá-lo, já que a população não abre mão do seu culto quase passional às armas e à liberdade de comprá-las sem restrições?

RATO - No Brasil, a Polícia Militar de São Paulo chocou o país ao executar (pelo menos) dois inocentes: um publicitário que não parou o carro à noite quando ordenado a fazer isso e um jovem que fugiu com medo porque a carteira de habilitação estava vencida. Além disso, matadores que não se sabe quem vêm barbarizando na cidade nas últimas semanas, executando e chacinando sem que se saiba de quaisquer razões e desfechos para tais crimes. Num outro episódio noticiado na imprensa internacional, um jovem italiano que chegou à mesma São Paulo em um dia, para morar e trabalhar, foi assassinado no dia seguinte, numa tentativa de assalto frustrada no trânsito, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Veio para o Brasil e morreu como um rato perseguido por exterminadores dispostos a explodir o primeiro cérebro que encontram pela frente troca de um relógio ou um celular.

FASCÍNIO - Sim, o mundo, Brasil incluído, choca-se com jovens como o estudante de medicina James Holmes, o auto-intitulado Coringa da sessão noturna de Aurora, mas pouco se esforça para lembrar que a natureza da banalização da violência pode até ser de ordem diferente, mas a nossa é tão banal e brutal quanto. Quando contados os cadáveres de um em um, aqui mata-se/morre-se muito mais que lá. A Polícia Militar de São Paulo, por exemplo, mata mais que toda a Polícia dos Estados Unidos (e nos Estados Unidos). Por que o espanto com a matança dos outros é maior do que com a nossa, a doméstica incluída? Por que a matança de lá é a de um homem só, que, em surto assassino, revolve interromper a vida de dezenas? Aqui, de um em um, os matadores matam muito mais, enquanto o brasileiro olha horrorizado para a violência americana coletiva desses episódios, talvez porque encontre neles um quê de fascínio hollywoodiano. Violência é violência, assassinato é assassinato e cada país tem a sua forma banal de matar seus cidadãos. O que faz de James Holmes um sujeito mais assustador que um assassino anônimo que explode a cabeça de um motorista numa rua de São Paulo, querendo apenas levar um objetinho para casa? Lá é loucura e aqui é pobreza e desigualdade? Esses fenômenos não justificam a banalização da morte do outro. Nem lá, nem aqui.

VIZINHO - No terreiro local, uma quadrilha inicialmente descrita como formada por quatro jovens de classe média e um deles considerado rico em qualquer sociedade, divertiam-se roubando mansões num condomínio de luxo nos arredores de Salvador, onde cada uma das cerca de 400 mansões custam entre um e 10 milhões. Entravam no espaço privilegiado e supostamente protegido por grades, câmeras e seguranças graças ao apoio logístico de um dos integrantes da quadrilha, morador do oásis desde criancinha. A razão dos assaltos, que incluíam seqüestros relâmpagos e torturas psicológicas nas 10 famílias de moradores vitimadas desde 2011, era banal: gastar o dinheiro com noitadas. Segundo o delegado, os rapazes pagavam contas de até 15 mil numa única balada. Os rapazes negam os cálculos. Dizem que eram só cinco mil por noite, em média.

Lá e cá, portanto, o que há em comum na violência cometida é a gratuidade da ação, do comportamento de quem mata, tortura, violenta, persegue e achaca, Polícia Militar incluída. No caso dos condomínios horizontais de luxo, não deixa de ser curioso que 10 em cada 10 pesquisas feitas por pesquisadores do campo das ciências sociais apontam para um detalhe que deveria intrigar quem investe milhões nessas mansões em nome do sonho de viver feliz sob dois guarda-chuvas: a segurança e a liberdade. Um estudo recente feito por uma pesquisadora da Universidade de Brasília mostra por A mais B que praticamente a totalidade de atos delituosos, conflituosos e de insegurança registrados em condomínios tem como autoria os próprios moradores. A leitura dessas pesquisas deixaria boquiaberto quem sonha com os gramados, as crianças brincando com portas abertas e a confiança plena nos vizinhos nos condomínios de classe alta.

HASTA LA VISTA - A banalização do mal se concretiza quando se come uma pipoca no cinema e um sujeito arranca-lhe da poltrona para lhe matar; quando seu vizinho de porta do condomínio chama os amigos para lhe seqüestrar apenas em nome do desejo de sair para entornar 10 mil em uísque, como repetiram os telejornais de Salvador durante a semana. É como se esses sujeitos vissem nisso tudo uma brincadeira, como se quase piscassem o olho após cruzar a fronteira do intolerável e dissessem às suas vítimas, como vingadores ocos de um futuro bestial: ‘hasta la vista, baby’. E a referência aqui não é o disco homônimo do U2, mas puro Schwarzenegger.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de julho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

A TARDE
29/07/2012 
P.S.

Pois é, queridos leitores da coluna 

Como é do conhecimento de vocês (os que moram em Salvador), o jornal A Tarde vem há algum tempo enfrentando uma crise que só tem se aprofundado. As demissões têm sido sucessivas e fala-se que somente em julho teriam sido cerca de 80, umas 20 na redação e as demais em todos os setores. Vem há muito diminuindo páginas, perdendo cadernos, enfim, cortes de todos os tipo. Esta semana fui comunicada que a coluna deixará de ser publicada a partir de agosto. Como amanhã, domingo/29 é o último domingo de julho, despeço-me de vocês no que se à publicação do texto neste espaço. Como cantava Xuxa antes de a sabermos abusada, foi bom estar com você... Daí o título, proposital, da coluna: Hasta la vista, Baby...








segunda-feira, 14 de maio de 2012

Entrevista - Gilca Oliveira


A doutora Gilca Oliveira é graduada em Engenharia Agronômica. Atualmente é professora da Universidade Federal da Bahia lecionando as disciplina de Economia Rural e  coordenadora do Curso de Mestrado em economia da Ufba (CME/UFBA). Integra o Grupo de Pesquisa Projeto GeografAR, onde atua nas áreas de Economia Agrária, Agricultura Familiar, Desenvolvimento Regional e Indicadores de Sustentabilidade. Nesta entrevista, a professora fala sobre sua pesquisa, que tem como objeto o mapeamento do trabalho escravo na Bahia, envolvendo questões como a ação dos Movimentos Sociais do Campo, as Políticas Públicas e a Produção do Espaço.
Culpa da Imprensa – Em que regiões da Bahia predominam o trabalho escravo?
Gilca Oliveira – O resgate de trabalhadores em condições análogas a de escravo, na Bahia, predomina na região oeste do estado. Num total de dezenove municípios onde aconteceram resgates, dez deles estão no oeste do Estado, nos municípios de: São Desidério (10), Barreiras (7), Formosa do Rio Preto (7), Luis Eduardo Magalhães (4), Baianópolis (3), Riachão das Neves (3), Cotegipe (2), Cristópolis (1), Santa Rita de Cássia (1) e Wanderley (1).
Culpa da Imprensa – Quais as condições – físicas e psicológicas – a que esses trabalhadores estão submetidos?
Gilca Oliveira – Normalmente, não têm seus direitos de dignidade e trabalhistas garantidos. Estes trabalhadores são sujeitos à coação física e psicológica, impedimento de deslocamento por dívidas ou por isolamento, muitas vezes com o uso de armamentos. Além disso, são mantidos em condições degradantes de moradia e alimentação, situações nas quais qualquer um de nós qualificaria como desumana.
Culpa da Imprensa – Quem são os responsáveis por escravizar os trabalhadores?
Gilca Oliveira – As denúncias e os resgates de trabalhadores na Bahia tem sido na área rural, o que não quer dizer que não ocorram situações de trabalho degradante também no setor urbano. Os resgates têm ocorrido, principalmente, nas atividades de soja, milho e algodão (34%), seguido de carvoarias (25%), preparação do terreno (20%), cultivo de café (7%), eucalipto/reflorestamento (5,5%) e extração de madeira (3,6%). Além de serraria, bovinos e cultivo de cebola, todos com, aproximadamente 2%. Os responsáveis são os proprietários destes empreendimentos que exploram ao máximo o trabalhador, sujeitando-o a condições degradantes.
Culpa da Imprensa – Quais os desafios para o combate ao trabalho escravo na Bahia?
Gilca Oliveira – A maior dificuldade de se combater o trabalho escravo na Bahia está na estrutura social extremamente desigual em que vivemos. No campo baiano, unem-se dois entraves: a estrutura agrária extremamente concentrada e a falta de oportunidade de trabalho. Assim, os trabalhadores resgatados não têm outra alternativa senão se sujeitar ao capital para poder garantir a sobrevivência de sua família. O trabalho escravo é uma questão séria e deve ser combatida com medidas estruturantes, como uma reforma agrária decente. Neste, sentido a PEC 438/2001, a conhecida PEC do trabalho escravo, tem sua contribuição. Este Projeto de Emenda Constitucional dá nova redação ao artigo 243 da Constituição Federal, que trata da função social da propriedade. Ela estabelece a expropriação da terra (rural) ou estabelecimento (urbano) em áreas onde forem resgatados trabalhadores, revertendo a área ao assentamento de trabalhadores. Além do resgate, os trabalhadores precisam de oportunidades dignas para que sejam reinseridos socialmente.
Culpa da Imprensa – O que o Estado tem feito para combater essa prática?
Gilca Oliveira – No âmbito federal, há a Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), dois Planos Nacionais de Combate ao Trabalho Escravo. Há também o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), que atua no resgate dos trabalhadores, composto por auditores fiscais do trabalho do MTE, que coordenam as ações de campo, procuradores do Ministério Público do Trabalho e Policiais Federais. Além deles, ainda contamos com a Lista dos Empregadores Infratores, conhecida como Lista Suja, onde é possível encontrar informações sobre os empregadores que forem flagrados impondo condições de trabalho escravo. A Lista é um importante instrumento para a sociedade tomar conhecimento destes empreendedores e agir cobrando ações de punição aos mesmos. No Estado da Bahia, há a Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo (COETRAE) que busca atuar também nesta frente. E, na sociedade civil organizada, tem-se a Campanha contra o Trabalho Escravo encabeçada pela CPT, na qual estamos juntos, tem por objetivos: Alertar e sensibilizar a sociedade para a existência de aliciamento e trabalho escravo na Bahia e estimular a participação no seu combate; realizar Diagnóstico das condições de trabalho nas fazendas, tanto na Bahia quanto nos lugares onde os baianos migram; Informação e formação sobre direitos de trabalho e procedimentos para fazer denúncias; Denúncias aos órgãos públicos responsáveis pelo resgate dos trabalhadores e punição dos culpados.
Culpa da Imprensa – Qual a punição para essas pessoas? E é realmente cumprida?
Gilca Oliveira – O Código Penal brasileiro prevê punição em seu artigo 149 – alterado pela Lei nº. 10.803/2003, entretanto, a legislação é branda e, nem sempre é aplicada, devido as diversas instâncias para recorrer e a própria prescrição. Em abril deste ano, um empresário (identificado como B.R. P.F.) de Barreiras foi condenado a quatro anos de reclusão e pagamento de multa, mas devido aos condicionantes, a pena foi revertida em trabalhos na comunidade.
Culpa da Imprensa – Quais são as dificuldades para pesquisar sobre o tema?
Gilca Oliveira – No nosso caso, trabalhamos com dados primários, secundários e acompanhando as ações do Governo. Os dados secundários estão disponíveis de forma bastante transparente nas diversas páginas de organizações que tratam do tema como  Ministério do Trabalho e Emprego; Repórter Brasil, Organização Internacional do Trabalho, dentre outros. Aqui na Bahia, o grupo de pesquisa do qual faço parte, Projeto GeografAR, também apresenta em sua pagina eletrônica os mapas que construímos e a base de dados do trabalho escravo na Bahia, que já são resultados do nosso estudo. Quanto aos dados primários temos alguma dificuldade em tratar com os sujeitos resgatados, mas nossos parceiros Comissão Pastoral da Terra, Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais, Pastoral do Migrante e SINTAGRO, nos apoiam nesta interlocução. Tratar com os empregadores é ainda mais difícil porque não uma aceitação desta condição pelos mesmos. O diálogo com o governo enfrenta diversas dificuldades. O trabalho escravo não é uma temática que foi, de fato, acolhida pelo Governo Estadual. Muito ainda há por ser feito, como a consolidação da COETRAE, o comprometimento da Secretarias de Estado quanto ao Plano de Erradicação do Trabalho Escravo e um orçamento específico para as diversas frentes do Combate ao Trabalho Escravo.
Culpa da Imprensa – Qual a sua avaliação sobre o fato de Bahia ocupar 7º lugar no ranking de trabalho escravo no país?
Gilca Oliveira – O Trabalho escravo é encontrado em Estados ditos desenvolvidos, como São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, assim como em estados denominados pobres, como a Bahia. Está disseminado por todo o país. Na verdade, não importa nossa classificação: importa estarmos convivendo com isso. Importa estarmos sentados em nossas salas de aula e, neste mesmo momento, milhares de brasileiros estarem sendo humilhados em busca da ilusão de dias melhores. Importa que, de aproximadamente 25.000 trabalhadores resgatados, no Brasil, de 2003 a 2011, aproximadamente, 3.000 eram baianos. Não podemos aceitar esta situação.
Culpa da Imprensa – Quais os principais resultados da sua pesquisa?
Gilca Oliveira – Nossa pesquisa tem também caráter de formação, tanto no campo, tratando dos direitos dos trabalhadores quanto na universidade, denunciando a prática deplorável que ainda se mantém no Brasil e na Bahia. Além disso, foram realizados diversos trabalhos que se transformaram em dissertações, monografias, artigos científicos, cartilhas, dentre outros materiais. Mais do que isso, nos serviu para pequenas e grandes reflexões quanto às extremas desigualdades que nos cercam e nosso papel neste cruel cenário.
Culpa da Imprensa – Quem são os pesquisadores envolvidos? E quais são as áreas que eles atuam?
Gilca Oliveira – Nossa pesquisa tem apoio do CNPq e da CPT. Estão envolvidos: Guiomar Germani – professora do Mestrado de Geografia da UFBA e coordenadora do grupo de pesquisa Projeto GeografAR. Todo o pessoal do GeografAR apóia a pesquisa, diretamente ligado a ela estão: Hernane Nery – estudante do curso de Geografia da UFBA e Ludiara Fernanda dos Santos – mestre em Economia UFBA. Também participam os estudantes do curso de graduação em Economia/UFBA Rômulo e Theo. Os parceiros da CPT, em especial, Juliano Vilas Boas e Tatiana Dias Gomes (Direito). E da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais, em especial, Maurício Correia (Direito). E Domingos Gomes da SINTAGRO-Juazeiro.