sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Em um dos seis, branco ou nulo?


Foi dada a largada. Ontem (02/08) foi realizado pela Band o primeiro debate entre candidatos a prefeitura de Salvador. Pois é.  Com algumas semanas de antecedência a emissora insistia, como sempre, que era a primeira a realizar o debate entre candidatos a prefeito. E pra variar só um pouquinho, repórteres entrevistavam cada candidato que chegava a sede da emissora e faziam as mesmas perguntas: qual a sua expectativa para o debate, candidato? E sempre com um sorriso no rosto o candidato responde à pergunta de forma agradável, provavelmente recebida em um papel amassado de um assessor de campanha ou treinada na frente do espelho antes de sair de casa e prontinha para ser vomitada em qualquer repórter que se ousasse lhe fazer tal pergunta clichê. Ufa! Um pseudodebate. Segundo a própria emissora e os candidatos prometeram, exposição de ideias e propostas para a cidade fariam parte do debate. Hein? O próprio modelo de debate imposto pelas emissoras de comunicação já é um empecilho para a exposição de qualquer ideia que seja; tudo é muito cronometrado, robotizado, engessado, em fim...  Dois minutos para um candidato responder à pergunta elaborada pela emissora. Tempo mais que suficiente, não é? Claro que não. Isso só ajuda a manter o modelo de resposta fest-food. Acho que quando a população diz não gostar do horário político tem razão. Em não assistir aos debates, idem. Tanto é que vi um dia desses, não lembro onde, que a maioria das pessoas que veem os debates, já tem seus votos definidos. Ou seja, assistem para se divertir, creio eu. Em tempo de Zorra Total qualquer debate político nos traz um pouco de divertimento.

As promessas e as respostas são sempre as mesmas e por mais bonitas que sejam não serão cumpridas. Sim, sou pessimista. Ponto. Todo mundo sabe que política é poder e gira em torno de interesses, sejam políticos ou empresarias que por coincidência, quase sempre andam juntos. Salvador infelizmente passa por uma situação lamentável. A cidade é dividida em lotes, o que não é novidade para ninguém. Também não vejo solução. Quem faz aniversario, ou seja, ganha a eleição, tem mesmo que dividir o bolo. O primeiro pedaço sempre vai para o pai, mãe, irmão, ou para o melhor amigo. Quem apoia mais, seja financeiramente ou de qualquer outra forma, leva a maior fatia. Sempre!

PRIMEIRA PESQUISA - Temos oito opções: Votar em um dois seis candidatos, nulo ou em branco. O primeiro é o neto de ACM, não necessariamente “neto” precisaria vir antes de “ACM”, já que o menino já anda com suas próprias pernas há algum tempo. Pelegrino, candidato do PT, sonha há alguns anos ser prefeito de Salvador, só. Como uma novidade velha, ou vice-versa, aparece o salvador MK, ou Mário Kertész. Depois de 18 anos comandando a Rádio Metrópole, ouvindo os problemas da população, batendo em João Henrique e mandando página musical, vem dizer que Salvador tem jeito. Acredito. Salvador tem jeito mesmo. E sinceramente, até gosto de MK e com certeza ele fará a diferença nessas eleições. Em 4° está Márcio Márinho, o bispo. Não sei o que comentar sobre o vice de ACM Neto nas eleições para prefeito em 2008. Lembram? Pois é. Em seguida vem Da Luz, que há algumas décadas pensa em acender as luzes de Salvador. É até um pouco engraçado, como a maioria dos candidatos de partidos nanicos. Hamilton Assis, nem preciso comentar, já que não pontuou nas pesquisas. Só que não sou desses, gosto de democracia. É até legalzinho, poderia ter se candidatado a vereador, as chances seriam maiores. Pena.

Pra mim, é dia 21 de agosto que começar o melhor da politicagem. A propaganda eleitoral virá com as mais variadas figuras que a televisão poderia ter. Como os programas de humor andam em falta na Tv brasileira, vou aproveitar o período para me divertir, principalmente com os candidatos a vereadores.

domingo, 29 de julho de 2012

Saudade, Malu

A última Teleanálise de Malu Fontes foi publicada  no A Tarde deste domingo (29/07). Sentirei saudade da ironia, acidez e do bom humor contidos em seus textos. Há quatro anos acompanhando Malu, percebi o quanto ela é apaixonada por notícias, informação e jornalismo. Sei que ela vai continuar escrevendo, seja para outros jornais, sites ou blogs. Porém, foram as Teleanálises que me fizeram refletir sobre os mais diversos temas e além de tudo influenciar na escolha da profissão que optei por seguir.


O jornal A Tarde atravessa uma de suas maiores crises. Em fevereiro de 2011 um jornalista foi demitido por imposição de empresários do setor imobiliário depois de fazer uma denuncia contra uma construtora. Um mês depois, veio o pedido de demissão da jornalista Emanuella Sombra, após o editor-chefe, Ricardo Mendes, determinar a retirada do trecho da entrevista que ela fez com a cantora Ivete Sangalo. As perguntas se referiam à crise enfrentada pela Caco de Telha e ao processo que envolvia seu ex-baterista, Tonho Batera, e seria publicada na revista Muito.


A cada dia o impresso reduz páginas e elimina cadernos, como aconteceu com a Revista da Tv, onde o texto de Malu Fontes era publicado sempre aos domingos. Depois da extinção da RTV a coluna de Malu foi transferida para o Caderno 2+, porém, sem alterar o dia.


Confira:
Teleanálise retirada do Blog Conteúdo Livre


 Malu Fontes - BATMAN E O VIZINHO: HASTA LA VISTA, BABY

Durante a semana, notícias tendo como elemento central a banalização da morte nortearam as principais manchetes dos telejornais internacionais, nacionais e locais. Sim, esses fenômenos são uma constante no jornalismo, mas aqui e acolá episódios nos quais essa banalidade se manifesta os hierarquizam de tal modo numa ordem de horror e non sense que ainda surpreendem. Partindo do global para o local, nos Estados Unidos, no estado do Colorado, na cidadezinha de Aurora, uma plateia de batmaníacos esfregava as mãos de ansiedade para uma sessão de estreia do filme à meia noite, quando, no escuro, irrompeu o imponderável. Uma saraivada de tiros. 12 mortos, 58 feridos e um país de novo boquiaberto.

MARKETING - Num país, os EUA, onde todas as naturezas de ações de marketing são possíveis, numa cultura local do culto às armas de fogo na qual qualquer moleque consegue comprar um arsenal de guerra sem qualquer dificuldade e numa sucessão de casos em que adolescentes ou adultos jovens perturbados já inscreveram uma longa história de violência, primeiro achou-se que os tiros não passavam uma ação de marketing associada à estreia. Depois, houve uma correria às lojas de armas da cidade para comprar mais e mais exemplares delas e, simultaneamente, a imprensa do mundo repetiu a pergunta que faz sempre e para a qual nunca se tem resposta objetiva e diante da qual todas as especulações malucas disputam um lugar entre as possibilidades de explicação: por que esse fenômeno se repete tanto nos Estados Unidos e como evitá-lo, já que a população não abre mão do seu culto quase passional às armas e à liberdade de comprá-las sem restrições?

RATO - No Brasil, a Polícia Militar de São Paulo chocou o país ao executar (pelo menos) dois inocentes: um publicitário que não parou o carro à noite quando ordenado a fazer isso e um jovem que fugiu com medo porque a carteira de habilitação estava vencida. Além disso, matadores que não se sabe quem vêm barbarizando na cidade nas últimas semanas, executando e chacinando sem que se saiba de quaisquer razões e desfechos para tais crimes. Num outro episódio noticiado na imprensa internacional, um jovem italiano que chegou à mesma São Paulo em um dia, para morar e trabalhar, foi assassinado no dia seguinte, numa tentativa de assalto frustrada no trânsito, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Veio para o Brasil e morreu como um rato perseguido por exterminadores dispostos a explodir o primeiro cérebro que encontram pela frente troca de um relógio ou um celular.

FASCÍNIO - Sim, o mundo, Brasil incluído, choca-se com jovens como o estudante de medicina James Holmes, o auto-intitulado Coringa da sessão noturna de Aurora, mas pouco se esforça para lembrar que a natureza da banalização da violência pode até ser de ordem diferente, mas a nossa é tão banal e brutal quanto. Quando contados os cadáveres de um em um, aqui mata-se/morre-se muito mais que lá. A Polícia Militar de São Paulo, por exemplo, mata mais que toda a Polícia dos Estados Unidos (e nos Estados Unidos). Por que o espanto com a matança dos outros é maior do que com a nossa, a doméstica incluída? Por que a matança de lá é a de um homem só, que, em surto assassino, revolve interromper a vida de dezenas? Aqui, de um em um, os matadores matam muito mais, enquanto o brasileiro olha horrorizado para a violência americana coletiva desses episódios, talvez porque encontre neles um quê de fascínio hollywoodiano. Violência é violência, assassinato é assassinato e cada país tem a sua forma banal de matar seus cidadãos. O que faz de James Holmes um sujeito mais assustador que um assassino anônimo que explode a cabeça de um motorista numa rua de São Paulo, querendo apenas levar um objetinho para casa? Lá é loucura e aqui é pobreza e desigualdade? Esses fenômenos não justificam a banalização da morte do outro. Nem lá, nem aqui.

VIZINHO - No terreiro local, uma quadrilha inicialmente descrita como formada por quatro jovens de classe média e um deles considerado rico em qualquer sociedade, divertiam-se roubando mansões num condomínio de luxo nos arredores de Salvador, onde cada uma das cerca de 400 mansões custam entre um e 10 milhões. Entravam no espaço privilegiado e supostamente protegido por grades, câmeras e seguranças graças ao apoio logístico de um dos integrantes da quadrilha, morador do oásis desde criancinha. A razão dos assaltos, que incluíam seqüestros relâmpagos e torturas psicológicas nas 10 famílias de moradores vitimadas desde 2011, era banal: gastar o dinheiro com noitadas. Segundo o delegado, os rapazes pagavam contas de até 15 mil numa única balada. Os rapazes negam os cálculos. Dizem que eram só cinco mil por noite, em média.

Lá e cá, portanto, o que há em comum na violência cometida é a gratuidade da ação, do comportamento de quem mata, tortura, violenta, persegue e achaca, Polícia Militar incluída. No caso dos condomínios horizontais de luxo, não deixa de ser curioso que 10 em cada 10 pesquisas feitas por pesquisadores do campo das ciências sociais apontam para um detalhe que deveria intrigar quem investe milhões nessas mansões em nome do sonho de viver feliz sob dois guarda-chuvas: a segurança e a liberdade. Um estudo recente feito por uma pesquisadora da Universidade de Brasília mostra por A mais B que praticamente a totalidade de atos delituosos, conflituosos e de insegurança registrados em condomínios tem como autoria os próprios moradores. A leitura dessas pesquisas deixaria boquiaberto quem sonha com os gramados, as crianças brincando com portas abertas e a confiança plena nos vizinhos nos condomínios de classe alta.

HASTA LA VISTA - A banalização do mal se concretiza quando se come uma pipoca no cinema e um sujeito arranca-lhe da poltrona para lhe matar; quando seu vizinho de porta do condomínio chama os amigos para lhe seqüestrar apenas em nome do desejo de sair para entornar 10 mil em uísque, como repetiram os telejornais de Salvador durante a semana. É como se esses sujeitos vissem nisso tudo uma brincadeira, como se quase piscassem o olho após cruzar a fronteira do intolerável e dissessem às suas vítimas, como vingadores ocos de um futuro bestial: ‘hasta la vista, baby’. E a referência aqui não é o disco homônimo do U2, mas puro Schwarzenegger.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de julho de 2012, no jornal A Tarde, Caderno 2, p. 05, Salvador/BA; maluzes@gmail.com

A TARDE
29/07/2012 
P.S.

Pois é, queridos leitores da coluna 

Como é do conhecimento de vocês (os que moram em Salvador), o jornal A Tarde vem há algum tempo enfrentando uma crise que só tem se aprofundado. As demissões têm sido sucessivas e fala-se que somente em julho teriam sido cerca de 80, umas 20 na redação e as demais em todos os setores. Vem há muito diminuindo páginas, perdendo cadernos, enfim, cortes de todos os tipo. Esta semana fui comunicada que a coluna deixará de ser publicada a partir de agosto. Como amanhã, domingo/29 é o último domingo de julho, despeço-me de vocês no que se à publicação do texto neste espaço. Como cantava Xuxa antes de a sabermos abusada, foi bom estar com você... Daí o título, proposital, da coluna: Hasta la vista, Baby...